Wera Krijanowskaia

Há mais de um século os livros de Rochester vêm encantando leitores no mundo todo e abrilhantando não só a literatura espiritualista, mas a literatura mundial. Wilmot, Conde de Rochester, assumiu para si o trabalho de divulgar e solidificar a possibilidade da comunicação mediúnica durante o advento do espiritismo, revelando ao mundo material as leis que regem o universo, elucidando e desmistificando, assim, os mistérios da então nascente doutrina. Para tanto, preparou desde cedo a jovem médium Vera Kryzhanovskaia, espírito querido e afim, que serviria de intermediário na execução de sua importante tarefa, até então, escassas eram as informações a respeito da notável médium russa, provenientes principalmente de revistas francesas do final do século XIX. Porém, novas biografias foram recentemente localizadas na Biblioteca Nacional Russa, sediada em São Petersburgo, além de artigos encontrados na Internet, como o ensaio de Evguêny Kharitonov. Ivanovna Kryzhanovskaia descendia de uma antiga família nobre da província de Tambov, mas nas-ceu em Varsóvia no dia 14 de julho de 1861, onde seu pai – o general-major Ivan Antonovich Kryzhanovsky – comandava a brigada de artilharia. Sua mãe vinha de uma família de farmacêuticos. Desde cedo, a futura escritora recebeu uma boa educação e se interessava por História Antiga e ocultismo. dez anos de idade, seu pai morreu e a família ficou em situação econômica complicada. Vera, então, entrou numa associação beneficente de educação para moças nobres de São Petersburgo. No ano seguinte, em 1872, a família conseguiu introduzi-la na escola Santa Catarina como bolsista, mas sua frágil saúde e problemas financeiros impediram-na de concluir o curso e, em 1877, ela foi dispensa-da e concluiu sua educação em casa. B. Vlondraj, um dos principais biógrafos da escritora, um importante acontecimento deu novo rumo à vida de Vera. O espírito do poeta inglês J. W. Rochester (1647-1680), apro-veitando seus dons mediúnicos, materializou-se e Propôs que ela se dedicasse de corpo e alma a serviço do Bem e que escrevesse sob sua ajuda. Ambos estiveram juntos em várias encarnações: como Asnath e José, em “O Chanceler de Ferro”; Smaragda e Mernephtah, em “O Faraó Mernephtah”; Lélia e Astartos, em “Epi-sódio da Vida de Tibério”; Virgília e Cáius Lucílius em “Herculânum”; Rosalinda e Lotário de Rabenau, em “A Abadia dos Beneditinos”. É importante dizer que, após o contato com seu guia espiritual, Vera aparentemente se curou de uma doença grave na época – a tuberculose crônica – sem interferência médica. Ivanovna começou a psicografar aos 18 anos. De acordo com V. V. Scriabin, algo de “sobrenatural” acontecia quando ela escrevia: “Freqüen-temente, no meio de uma conversa, ela de repente se calava, ficava pálida e passando a mão pelo rosto, co-meçava a repetir a mesma frase: ‘Dêem-me um lápis e um papel, rápido!’ Geralmente, nessa hora, Vera sen-tava-se numa poltrona junto à uma pequena mesa, onde quase sempre havia um lápis e um bloco de papéis. Sua cabeça ficava levemente jogada para trás e os olhos, semicerrados, concentravam-se num único ponto. De repente, ela começava a escrever sem olhar para o papel. A verdadeira escrita automática. (…) Esse estado de transe durava de 20 a 30 minutos, após o que Vera Ivanovna geralmente desmaiava. (…) As transmissões por escrito terminavam sempre com a mesma palavra: ‘Rochester’. Conforme Vera, esse era o nome (ou melhor, o sobrenome) do Espírito que ela recebia.” Testemunho semelhante pode-se encon-trar nas “Anotações literárias” de M. Spassovsky: “No estado inconsciente, ela sempre escreve em francês… escritos são traduzidos para o russo e, criteriosamente, redigidos ou pela própria autora ou por uma pessoa de sua confiança.” Em 1880, numa viagem à França, Vera Ivanovna participou com sucesso de uma sessão mediúnica. Muitos contemporâneos se surpreenderam com sua produtividade, apesar da saúde débil. Por isso, apesar de muitos biógrafos e críticos afirmarem que sua escrita era puramente mediúnica e mecânica, como o doutor A. Aseev e L. Sokolova-Rydnina, outros preferiam considerar Vera como escritora ou co-autora dos livros do que como simplesmente médium. De qualquer forma, desde as primeiras mensagens já aparecia a assina-tura do espírito Rochester. Na Rússia e em vários países, muitos consideram Rochester somente como um pseudônimo ou como sobrenome de Vera. 1886 foi publicado em Paris o seu primeiro livro, o romance histórico “Episódio da Vi-da de Tibério”, psicografado em francês, como assim foram as primeiras obras, nas quais a tendência para temas místicos já podia ser notada. Certamente, Vera teve influência nas doutrinas de Allan Kardec e, possi-velmente, de Helena Blavatsky, de Papus, bem como o apoio de seu esposo S. V. Semenov. Um senhor polonês que conheceu pessoalmente a médium relatou, há muitos anos, que ela foi rica e tinha até secretária. Encontrou-a, certa manhã, a recolher imensa quantidade de folhas de papel, ajudada pela secretária, inclusive caindo pelas escadas, repletas de palavras em péssima caligrafia, que ela havia escrito durante a noite toda em completo estado de inconsciência ou sono profundo. Wera não se lembrava de nada e colocava as folhas em ordem, decifrando o que estava escrito. Ocorriam, também, fenômenos físicos em sua casa e que muito impressionavam os amigos. Havia um espírito que se materializava na presença dela e prometia destruir sua vida, caso não parasse de publicar seus romances. Às vezes ocorriam explosões e objetos despencavam ao solo sem causa aparente. Esse mesmo senhor viu Wera na miséria percorrendo as ruas e perguntando às pessoas se conheciam seus livros, tentou reeditá-los. Seu intento fracassou e sua filha faleceu de tuberculose, sob o rigoroso inverno eslavo, em tempos de fome e revolução.  (Fonte: www.autoresespiritasclassicos.com.)