Luiz da Costa Porto Carreiro Neto

Às 10 horas da manhã de 21 de Julho de 1964,desencarnou repentinamente, vítima de espasmo cerebral, o culto e operoso irmão Prof. Dr. Luís da Costa Porto Carreiro Neto.  Os leitores de «Reformador» conhecem o médium psicógrafo que sempre apareceu em suas colunas como mediador de poetas do Grande Invisível; muitos lhe terão lido o interessante livro «Ciência Divina», do Espírito de Jaime Braga. Não poucos hão – de ter notado que Porto Carreiro Neto foi continuador da obra iniciada por Francisco Valdomiro Lorenz, pois que prosseguiu em «Reformador» a seção de versos doutrinários recebidos diretamente em Esperanto, seção essa criada pelos nossos Maiores da Espiritualidade, em Julho de 1943, pela mão do médium F. V. Lorenz. Porto Carreiro Neto nasceu no Recife, Pernambuco, aos 7 de Janeiro de 1895. Foi criado por uma tia e madrinha, pois que sua genitora faleceu, deixando-o em tenra infância.

Casou-se em 7 de Janeiro de 1920 (na data de seu 25· aniversário), enviuvando a 13 de Junho de 1958, sem ter deixado descendentes.Era filho do Prof. Carlos Porto Carreiro, grande filólogo, linguista e poeta, a quem devemos excelente gramática portuguesa e obras de arte imortais, como a sua tradução da obra-prima de Edmond Rostand -«Cyrano de Bergerac» – tradução em lindos versos, reputados pela crítica como mais belos que os originais. Carlos Porto Carreiro era proprietário e diretor de um ginásio em sua cidade natal, Recife. Luís começou a lecionar no Colégio do pai aos catorze anos de idade. Mas tarde a família se transferiu para o Rio de Janeiro, onde Luís fêz com brilhantismo diversos cursos na Escola Nacional de Engenharia, a saber: de engenheiro civil, de engenheiro mecânico-eletricista e de engenheiro industrial, tornando-se, a partir de 1925. livre-docente, por concurso, da cadeira de Química Industrial da mesma Escola. Concorrendo à vaga para professor catedrático de Química Inorgânica e Análise Qualitativa, na Escola Nacional de Química, saiu vencedor, sendo nomeado em 1933, e ficando em disponibilidade na cadeira que até então ocupava na Escola Nacional de Engenharia. Posteriormente, foi empossado nas funções de Diretor da Escola Nacional de Química, dando mostras de grande atividade administrativa e elevado senso de responsabilidade. Alguns anos antes de falecer, o Professor Porto Carreiro se aposentou, deixando naquela Escola da Universidade do Brasil uma soma inestimável de serviços prestados à coletividade estudantil.

Como professor e examinador, seja nos cursos universitários, seja nos cursos elementares ou superiores de Esperanto, era sempre muito rigoroso para com os alunos, exigindo o máximo de aproveitamento, como era rigoroso para consigo mesmo. ‘Profundo conhecedor das ciências físicas, químicas e matemáticas, por vezes se insurgia calorosamente contra erros que os livros de ensino deixavam escapar,chegando mesmo a escrever aos seus autores, delicadamente solicitando destes as necessárias corrigendas para as futuras edições. Como esperantista dos mais cultos do mundo, foi durante decênios membro da Lingva Komitato e, depois, da Akademio de Esperanto. Secretário-geral da «Liga Brasileira de Esperanto», vice-presidente do Brazila Klubo Esperanto, vice-chefe delegado da Universal a Esperanto Asocio, seu nome tornou-se internacional, sendo incluído, com uma bibliografia, na conhecida Enciclopedio de Esperanto, publicada em Budapest (1933-34). Poeta, prosador e tradutor, preparou livros realmente magistrais em e sobre Esperanto. Traduziu para essa língua dois romances brasileiros: «A Viuvinha»,de José de Alencar, que foi publicado, e «Bugrinha», de Afrânio Peixoto, inédito.

No seu opúsculo «Panorama do Movimento Esperantista Mundial» (1968), a Prof. Yolanda de Araújo Costa informa que a Liga Brasileira de Esperanto editou, além de «La Vidvineto», mais esses trabalhos de Porto Carreiro: «Principais Conquistas Mais Recentes do Idioma Auxiliar Internacional Esperanto» e «A Estrutura do Esperanto». E acrescenta: O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística também editou várias obras por ele traduzidas: «La Nova Erao – La .Era o de La Tutmondeco kaj Esperanto », «Mesajo de Ia Espero», «Per lu PU Bona Mondo »; alguns dos álbuns das capitais brasileiras e alguns capítulos de «Tipoj kaj Aspektoj de Brazilo», em colaboração com diversos tradutores. Com a meticulosidade esmerada de que era dotado, muitos manuscritos, de vários autores, foram por ele revisados, ·com atenta solicitude, entre os quais: «Teatro»,de Machado de Assis e «Antologio de Brazilaj Rakontoj», na qual também aparece um conto por ele traduzido. Juntamente com os Drs, A. Couto Fernandes e Carlos Domingues, elaborou o «Dicionário Português- -Esperanto», dado a lume em 1936. Nos últimos anos, o nosso caro confrade vinha exaustivamente trabalhando na organização de um novo e grande Dicionário Esperanto-Português, sempre ampliado a cada dia. Esta obra de gigante, que ele deixou terminada, acha-se em poder da Liga Brasileira de Esperanto. Em conjunto com o Prof. Ismael Gomes Braga, a este ligado por laços idealísticos profundos, refundiu totalmente, ampliando-a bastante, a obra «Esperanto Sem Mestre», de autoria de Francisco Valdomiro Lorenz, obra que já conta com várias edições impressas pelo Departamento Editorial da FEB.

A pureza, a fluência e a correção do seu Esperanto granjearam-lhe justos e merecidos elogios das entidades, dos órgãos de imprensa e dos homens mais representativos no mundo esperantista, comparando-se- -lhe muitas vezes o estilo com o de Zamenhof. Colaborou em vários jornais e revistas esperantistas do Brasil e do estrangeiro, quer em prosa, quer em verso, sempre admirado pela sua cultura e saber. Conhecia diversas outras línguas, entre elas o alemão, o inglês, o francês, o castelhano, o grego e o latim. Conferiu-lhe o presidente do Instituto Brasileiro de Cultura Alemã o diploma de sócio efetivo, e a Sociedade Brasileira de Geografia recebeu-o como sócio honorário. Apesar de sua vida de intenso trabalho e profícuas realizações, o Prof. Porto Carreiro Neto ainda encontrou tempo para aprender e aprofundar-se em outra ciência: o xadrez, chegando a ser campeão internacional, com seu nome estampado na imprensa de além- -fronteiras. É, todavia, no âmbito esperantista que sua existência se imortalizou, cobrindo-se de glórias imorredouras. Pelo Departamento Editorial da FEB, publicou as seguintes traduções, todas enaltecidas pela crítica daqui e de além-mar: «La Libro de Ia Spiritoj», «La Libro de Ia Mediumoj» (em colaboração com I. G .B . ), «Antaü du mil jaroj … », «En Ombro kaj en Lumo», «Nia Hejmo», «Ago kaj Reago». Deixou em Esperanto, para ser futuramente publicada pela FEB (e o foi em Junho de 1966), a grandiosa obra mediúnica «Paulo e Estêvão», e estava traduzindo «Qu’est-ce que le Spiritisme», de Allan Kardec, quando Atropos lhe cortou o fio da existência terrena. Não chegou ao meio do volume, tendo o Prof. Ismael Gomes Braga terminado a tradução, que foi publicada com o título — «Kio estas Spiritismo?» (1967). Como espírita, foi membro vitalício da FEB e membro do Conselho Federativo Nacional, representando Pernambuco. Médium de incorporação e psicógrafo, recebeu, como já mencionamos acima, um livro do Espírito de Jaime Braga, com o título «Ciência Divina», muitos sonetos em português e poemetos em Esperanto.  Espírito de alto nível moral, de vasta cultura e muita capacidade de trabalho, não se dobrava ao cansaço, nem ao desânimo.  Sua missão como esperantista e médium se achava. Sempre harmoniosamente enquadrada no programa de trabalho da FEB. Foi um dos trabalhadores de Jesus na preparação do Brasil para sua anunciada missão histórica. No último ano de sua existência terrena, como que prevendo o fim próximo, reviu, cuidadosamente, com aquela minúcia que o caracterizava, todas as obras em e sobre Esperanto publicadas pela FEB, à qual foram por ele entregues, para futuras edições.

Dois dias após a sua desencarnação, isto é, no dia 23 de Julho de 1964, o Espírito de Porto Carreiro Neto se manifesta no «Grupo Ismael», por meio do médium Olímpio Giffoni, e transmitiu aos confrades alentadora mensagem, da qual extraímos estas exortações: «Estamos de pé, com os olhos voltados para a nossa tarefa. Não a interrompemos, e vocês também não.

Eu, por um pouco, dizem-me, estarei ausente, mas retornarei. Enquanto isto, os amigos continuarão a obra, porque não é nossa, é do Cristo, é da Humanidade, o bom servidor soube aproveitar bem sua mais recente encarnação e, liberto das sombras da matéria, ràpidamente se amoldou à nova situação, vindo-nos afirmar, conforme suas próprias palavras, na comunicação mediúnica acima referida, «que tudo continua em Iaboro construtivo». Dois dias após a sua desencarnação, isto é, no dia 23 de Julho de 1964, o Espírito de Porto Carreiro Neto se manifesta no «Grupo Ismael», por meio do médium Olímpio Giffoni, e transmitiu aos confrades alentadora mensagem, da qual extraímos estas exortações: «Estamos de pé, com os olhos voltados para a nossa tarefa. Não a interrompemos, e vocês também não. Eu, por um pouco, dizem-me, estarei ausente, mas retornarei.Enquanto isto, os amigos continuarão a obra, porque não é nossa, é do Cristo, é da  Humanidade.»  O bom servidor soube aproveitar bem sua mais recente encarnação e, liberto das sombras da matéria, ràpidamente se amoldou à nova situação, vindo-nos afirmar, conforme suas próprias palavras, na comunicação mediúnica acima referida, «que tudo continua em laboro construtivo».  (Fonte: Grandes Espíritas do Brasil.)